domingo, janeiro 16, 2011

Saúdo-te com o meu amor!

Ontem era o teu dia. Não é hoje, foi ontem. Não me esqueci, tu sabes. Mas hoje parece mais fácil. Hoje já há palavras, aquelas que ontem não se ouviam, a não ser gritadas pela memória e pela saudade.
Farias 79 anos se cá estivesses e estaríamos todos juntos, como tu gostavas e tanto patrocinavas. Eramos uma família unida muito por tua causa e continuamos a sê-lo por essa mesma causa. Porque ainda hoje continuamos a sentir que nos unes e não podemos não te ouvir.
Tenho saudades tuas e tu sabes. Comecei a ter esta imensa saudade no momento em que te vi naquela cama de hospital. Senti desde logo saudades daquilo que me roubavam e não poderia viver contigo. Tanto tanto que ainda queria viver contigo. Roubaram-me a vida ainda não vivida e não se perdoa algo assim. Sempre estiveste comigo. Todos os dias até àquele. E eu não saberia viver sem isso. E continuo sem saber. A verdade deixou de ser a que eu conhecia. A vida ficou irremediavelmente outra e menos intensa.
Talvez por isso continues sempre aqui, no meu coração. Porque é-nos urgente pensar e acreditar assim. E talvez por isso, passados quase 14 anos, a tua casa, que já não é a mesma, continua a ser a casa da avó Ina. E até a Pipinha, que nunca te viu mas que tu conheces, sabe que aquela era a tua casa. E que tu eras a mãe, a avó ou a tia de todos. Todos mesmo. E por isso há uma multidão que te recorda.
E por isso, às 17h de cada dia, é a tua hora. A hora em que chegavas com pão quente para lancharmos juntas. E cada vez que cozinho tu és a convidada de honra e cozinho para ti. Porque eras tu que sempre estavas disposta a partilhar as refeições que eu teimava preparar na pré-adolescência. E quando não ficava tão saboroso, tu acompanhavas-me e dizias sempre que estava bom. Porque tu eras assim. E por isso é-me evidente que há mimos típicos de avós que os pais não conseguem superar. E a mãe é tudo, mas ainda assim sinto a tua falta. Daquilo que vivi e do que não vivi, e de te ver naquilo que entretanto vivi. Sei que o sabes, que sempre estiveste presente, mas sinto a falta das tuas expressões e observações, das caras que farias e das palavras que dirias. E de rir com isso.
E por isso adoramos falar de ti. E mais ainda quando são os outros que nos falam de ti, com esse mesmo carinho. E eu amo de paixão quando sou comparada à avó. E sinto a responsabilidade de manter-te viva em mim. E não quero que o tempo mude, ainda que entenda que seja irremediável. Não quero que nos esqueçamos e sei que também não o conseguiríamos. Mas mais, quero que outros também não te esqueçam, mesmo aqueles que nunca te chegaram a ver. Quero que o meu (e se possível, o nosso) testemunho sirva de catalizador para a lamparina se manter acessa e se ver luz cada vez que se ouça o teu nome. Vitorina, vitória, vitoriosa. E perante todas as adversidades, todo o sofrimento que viveste, sempre soubeste sair assim, vitoriosa, de cada situação. E vias esperança, amor e vitória em cada uma delas. E tentavas ensinar-nos esse segredo. E é o teu nome que eu vou perpetuar na nossa casa. Porque quero que ela se lembre de ti. Ainda que nasça 14 anos depois da tua partida. Porque quero que te sinta pertinho pertinho. Porque quero que o teu segredo seja o segredo dela. E porque quero que tenhas mais tempo para viveres a vida que merecias e que não foi vivida. E é esse o meu compromisso. Ser agora eu a proporcionar-te isso, com tudo aquilo que me ensinaste e com todo o teu, e agora meu, AMOR. Quero continuar a amar-te e fazer-te sentir esse amor. Quero proteger-te e mimar-te. Sempre. Sempre. Como ainda me fazes. Amo-te Avó!

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